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Vida Normal

agosto de 2009 • Categoria: Colunas, Rita Miranda, Ultimas

É muito bom quebrar a rotina, dormir fora do horário, deixar a novela de lado, não ter tempo pras pequenas coisas do dia-a-dia. É muito bom fazer aquele trajeto costumeiro por um caminho diferente, num ritmo alterado. É muito bom, não ter tempo pra aquele banho demorado; se é que isso ainda é possível num tempo de escassez como o nosso. É muito bom, vestir qualquer roupa prá não perder a hora. É muito bom, respirar fundo e sem tempo prá pensar ir para a ação. Como tudo isso é bom. Improvisar durante o dia, comer qualquer coisa e aonde for possível, tomar um cafezinho de pé no balcão e correr. É muito bom este corre, corre produtivo. Mas eis que, quando menos se espera reaparece a velha angústia costumeira, aquela de sempre que fica a espreita enquanto estamos acelerados perseguindo as circunstâncias da vida. E quando parece que enfim superamos o vazio da existência, substituindo-a pela satisfação plena, eis que surge a velha inquietação de sempre se fingindo de saudade. Ela começa assim com aquele nhenhenhém costumeiro: “Ai que saudade da normalidade”, “daquela vidinha de sempre”, “do trajeto costumeiro”, “da sensação de ter tudo sob controle”, “do controle remoto da TV”. E tome dia-a-dia, e tome novela, e tome dormir com as galinhas. E a gente retoma a conversa com os amigos na rua, e passa a gastar a toa o tempo. Volta a ler o livro antes de apagar a luz, a dar boa noite prá filha, a combinar o cardápio do almoço, a ginástica, a arrumar gavetas, a tirar o pó do armário, a vestir aquela roupinha prá dar uma voltinha. Retoma o velho chinelo, displicente, cabelo ao vento. Volta a levar a velha vidinha besta de sempre. É vidinha. Mas é só minha. E enquanto a insatisfação ainda está na dela, vamos aproveitar prá dar uma recolhidinha, que ninguém é de ferro. Boa noite. Aproveitem a calmaria.

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