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Rede de Mentiras

março de 2009 • Categoria: Cinema, DVD, Ivan Oliveira Chagas

por Ivan Chagas

Quando Hollywood e o mundo descobrem um grande astro, fatalmente seu passado, seja ele bom ou ruim, é vasculhado, revirado e trazido à tona. A partir de então, o estrelato é um caminho sem volta. Não basta apenas pensar em colher os louros da fama. Invariavelmente, um filme de baixo orçamento, uma participação medíocre em séries de tv a qual ninguém nunca se importou, ou ainda encrencas nas quais o novo filho pródigo das telonas se meteu acabam virando parte integrante do currículo de uma vida pré-fama.

 

No topo do hall de artistas mais injustiçados, não apenas por Holywood, mas sim pelo cinema mundial, está Leonardo Dicaprio. Após seu grande passo – não sei se para o céu, ou para o inferno – com o blockbuster Titanic, em 1997, a carreira do ator esfriou completamente pois todos o achavam sua imagem enjoativa e congelada, até 2002, quando Dicaprio estrelou o excelente Prenda-me se for capaz, de Spielberg, mostrando a que veio ao mundo.

 

O que mais me indigna é o fato de a vida do ator pré-Titanic ter sido completamente esquecida, e sua imagem ser tachada por uns e outros até hoje em dia como “apenas mais um rosto bonitinho”. Sem duvida alguma, quem pensou assim, simplesmente deletou da memória filmes como Gilbert Grape, As filhas de Marvin e Diário de um adolescente, películas nas quais as interpretações de Dicaprio, ainda garoto, humilham o começo de carreira de muitos outros astros já consagrados da atualidade.

 

Anos após iniciar sua carreira, e com grandes trabalhos no currículo, Leonardo Dicaprio mostra com Rede de mentiras (Body of lies, EUA, 2008), película de ação policial que acaba de chegar nas vídeo-locadoras do país, o real amadurecimento e consolidação de sua brilhante carreira à frente das câmeras.

 

Na adaptação da obra homônima de David Ignatius, jornalista que cobriu a CIA e suas ações no Oriente médio por dez anos, para o Wall Streer Journal, Dicarpio interpreta Roger Ferris, um ex-jornalista ferido na guerra do Iraque que se torna policial da CIA e, enviado à Jordânia, tem a missão de rastrear e capturar um dos líderes da Al-Qaeda.

 

Como o diretor Ridley Scott não consegue esconder que o australiano Russel Crowe é seu ator fetiche – eles já trabalharam juntos em Gladiador, Um bom ano e O gângster – este foi escalado para fazer o papel de Ed Hoffman, chefe de Ferris, que vive atrelado a um telefone celular, sempre há milhas de distância, apenas enviando ordens ao rapaz, e permanecendo com a integridade física intocável.

 

Os papéis de Dicaprio e Crowe são previsíveis desde o início. Um é bom, o outro, nem tanto. A surpresa mesmo fica por parte de Hani (Mark Strong, Rock’n’rolla – A grande roubada), o chefe de inteligência da Jorndânia, país que age junto ao Serviço Secreto americano no combate ao terrorismo no Oriente médio.

 

O problema realmente começa a se tornar mais sério devido ao fato de que, tanto o chefe, quanto seu subordinado, para chegar ao objetivo em comum, acabam utilizando métodos diferenciados, o que fatalmente poderia fazer ambos colidirem no meio das rotas traçadas.

 

Com ação de tirar o fôlego até dos mais calmos, Rede de mentiras aposta em muita tecnologia. Não me refiro aqui apenas aos efeitos especiais, e sim as parafernalhas tecnológicas militares utilizadas pelos Estados Unidos para desvendar ataques terroristas iminentes. As plano-sequências são simplesmente instáveis. Câmeras são posicionadas nos locais mais improváveis – seja em um satélite, ou por trás de uma solitária parede no deserto – para que o melhor ângulo seja capturado e mostrado ao espectador.

 

Ao contrário do acomodado Crowe, Dicaprio se mostra, mais uma vez, irredutível na arte de se sobressair e dar, literalmente, o sangue para elucidar a todos que sua passagem por Hollywood não é breve, e muito menos se resume ao personagem Jack de Titanic. Sem duvida Rede de mentiras se faz um grande filme, mas deixemos claro aqui que Leonardo Dicaprio carrega os quase 120 minutos da fita inteiramente em seus ombros.

 

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